Incentivos ao biodiesel não melhoram indicadores ambientais em determinadas regiões
Enviar comentário 25 August, 2010 - 13:52h
Segundo pesquisadora, famílias tiveram melhora em questões econômicas e sociais, mas suas práticas ambientais não se alteraram.
A implantação do Selo Combustível Social do Programa Nacional de Produção de Biodiesel (PNPB) chegou a melhorar os indicadores sociais e econômicos de agricultores em determinadas regiões do Brasil, mas os indicadores ambientais ainda não mudaram muito. A conclusão foi feita após pesquisa de campo que questionou 60 agricultores de dois polos de produção de matérias-primas do biodiesel.
Responsável pela pesquisa, que constituiu seu pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), Flavia Trentini analisou se os indicadores que definem, pelas cláusulas do PNPB, a sustentabilidade de uma região haviam sofrido modificações após a implantação de culturas voltadas para a produção de biodiesel.
Os entrevistados foram agricultores familiares de Quixadá, no Ceará, e Cachoeira do Sul, no Rio Grande do Sul. O município nordestino foi escolhido por receber incentivos governamentais e pelo foco no desenvolvimento de culturas alternativas, em especial a de mamona, como forma de melhorar a renda da região. Já Cachoeira do Sul é considerada Polo Central do Rio Grande do Sul pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), região de grande expressividade na produção nacional do biodiesel a partir da soja.
"Foi possível concluir, após a pesquisa de campo, que as novas culturas melhoraram as questões econômicas e sociais dessas regiões, mas os indicadores ambientais quase não se alteraram desde então. Os agricultores não mudaram suas práticas ambientais por plantar as oleaginosas", afirma Trentini. Segundo ela, falta ainda assistência e instruções mais pontuais no campo, que deveriam ser oferecidas pelo próprio MDA ou pelas empresas que compram sua matéria-prima dessas famílias.
No entanto, mesmo com pouca alteração, os indicadores são altos nessas regiões. Conforme a pesquisa aponta, por exemplo, 64% dos agricultores de Quixadá possuem áreas destinadas à preservação em suas propriedades, enquanto em Cachoeira do Sul esse percentual é de 80%. Quanto às condições dos recursos hídricos, no sertão central do Nordeste as pessoas afirmaram, em 91% dos casos, que não despejam qualquer tipo de dejetos nos rios, riachos ou olhos d'água. No Sul, 75% fazem o mesmo, sendo que muitos (73%) realizam a coleta seletiva rural, separando resíduos orgânicos dos não orgânicos. "Isso mostra que a cláusula ambiental do PNPB atuou posteriormente a qualquer degradação ambiental, e por isso é necessária uma revisão dessa questão pelo órgão que concede o Selo Social para o biodiesel. Afinal, não foi o biodiesel o que mais contribuiu para esses resultados", afirma Trentini.
A pesquisa faz parte de um estudo mais abrangente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que, desde 2008, busca analisar a sustentabilidade proporcionada pelos biocombustíveis, em especial o biodiesel e o etanol.
Fonte: Globo Rural Online