Funai espionou missionários na ditadura
26 February, 2009 - 10:29h Délcio Rocha
Os papéis demonstram a espionagem feita pelos órgãos de segurança sobre o grupo de padres e bispos que, em abril de 1972, sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), fundou o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), ligado à Igreja Católica.
As centenas de telegramas, ofícios, relatórios de missão, análises e bilhetes manuscritos foram produzidas ou recebidas pela ASI (Assessoria de Segurança e Informações), que por duas décadas funcionou na Funai. A coordenação regional do Arquivo Nacional em Brasília, ligado à Casa Civil, recolheu os papéis em 2008.
O SNI montou uma extensa rede de espionagem na máquina estatal. Cada ministério contava com uma divisão de segurança e informações, enquanto fundações, autarquias, universidades e estatais tinham uma ASI. As unidades se relacionavam com a chefia central do SNI. O Arquivo Nacional já contou pelo menos 248 órgãos diferentes vinculados ao SNI. A Funai era um deles.
"Dossiê" - A partir de 1974, com o general Ernesto Geisel (1974-1979) na Presidência, a entrada e a atividade de missionários nas áreas indígenas foram monitoradas por uma rede de informações que começava no alto escalão da Funai, passava por delegados regionais dos órgãos e por capitães de postos indígenas e chegava aos índios, coagidos e interrogados sobre a presença dos padres, como indicam vários dos telegramas. Todos os documentos eram enviados à chefia da ASI em Brasília.
O "dossiê Cimi" compreende cerca de 2.000 páginas, incluindo cadernos de formação e textos produzidos pelo Cimi e que eram apreendidos pelos espiões tão logo distribuídos entre os índios.
Os militares acreditavam que o Cimi pregava o comunismo nas aldeias e queria "subverter" o controle do órgão sobre os índios. Os informes - alguns intitulados "atuação da esquerda clerical" ou "infiltração comunista e atuação de grupos religiosos" - serviram de base a inúmeras medidas da presidência da Funai contrárias aos missionários.
Na Funai, a figura relevante do período foi o controvertido general de Exército Ismarth de Araújo Oliveira, que presidiu a Funai entre 1974 e 1979 –o mais longevo da história do órgão. Hoje descrito por parte de antropólogos e indigenistas como defensor das causas indígenas, Ismarth aparece em telegramas e bilhetes ordenando vigilância, proibindo o acesso a terras indígenas e determinando medidas contra os padres.
Em 1978, Ismarth enviou carta confidencial ao general-de-brigada Francisco Batista Torres de Melo, comandante da Brigada Mista de Corumbá (MS), então responsável por uma extensa faixa territorial que ia de Goiás ao sul de Mato Grosso e na qual viviam populosas etnias indígenas acossadas por posseiros e colonos.
"A Funai está seriamente preocupada com o recrudescimento da atuação da ala esquerdista da igreja nas áreas indígenas de Mato Grosso, em particular nas que estão sob o controle das missões salesianas", escreveu Ismarth.
Citando os bispos Pedro Casaldáliga e Tomás Balduíno, cofundadores do Cimi, Ismarth escreveu que a intenção "dessa ala esquerdista da igreja (é) usar o índio como instrumento, criando agitação em áreas que estão tranquilas".
Ismarth sugeriu que fosse feita a "infiltração de um elemento da Brigada na área da Missão Salesiana de São Marcos (MT). Para não despertar suspeitas, o mesmo portaria uma carteira funcional de servidor da Funai".
Dias depois, o general respondeu que concordava com a infiltração e encomendou a missão secreta a uma seção do Exército em Aragarças (GO).
Localizado pela Folha em Fortaleza (CE), o general-de-divisão reformado Torres de Melo, 84, disse não se lembrar desses papéis. "Eu me dava bem com a igreja. Não me lembro de nenhum problema na época." Entre 1974 e 1977, Melo comandou a Polícia Militar de São Paulo, na gestão do secretário de Segurança Pública Erasmo Dias.
Às vezes o general Ismarth usava seu poder de veto em simples retaliação às críticas públicas feitas pelos missionários contra o governo. Num bilhete de 1976, por exemplo, o general despachou no canto de um pedido de entrada de um padre a uma aldeia do Amazonas: "As críticas que o Cimi, por intermédio do padre Egydio [Schwade], vem fazendo ao governo e à Funai não permitem que o pedido seja atendido".
Em outro bilhete, respondeu a um funcionário que queria saber se a Funai fora chamada para uma reunião com o Cimi: "A Funai não foi comunicada e mesmo que tivesse (sido), não participaria de reunião do Cimi, face as características de que as mesmas se revestem de ataques ao governo".
Vigilância - Ismarth era sempre informado pela ASI sobre as ações do Cimi. Em resposta, disparava telegramas. Em março de 1978, orientou: "Esta presidência tomou conhecimento de que o padre (do Cimi) Dionísio Egon Heck dirigiu-se a esse Estado a fim de manter contatos com índios dessa região, seja para agitá-los, seja para participação (informá-los) sobre problemas no sul do país. Determinar a todos os PIs (postos indígenas) estreita vigilância, impedindo ingresso do mesmo a qualquer área. Em caso de recalcitrância, acionar autoridades".
As perseguições da Funai se estendiam aos índios que aceitavam conversar com os missionários. Em 1976, ao ser informado de que a cúpula do Cimi estava reunida em Rio Branco (AC), Ismarth datilografou carta confidencial ao chefe da ASI. "A reunião está tendo caráter sigiloso e, apesar da vigilância da Funai, o Cimi conseguiu arrebanhar dois índios do rio Purus (…). Os órgãos de segurança: Polícia Federal, SNI e do próprio Estado estão atentos. (….) Ao término da reunião, será tentado deter os índios e conseguir que os mesmos informem os assuntos tratados e a orientação dada pelo Cimi."
Por: Rubens Valente
Fonte: Folha Online
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