A verdadeira verdade inconveniente
7 December, 2007 - 12:04h Délcio Rocha
A concessão simultânea do Nobel da Paz ao ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, e ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) foi recebida com muita festa pela grande mídia em todo o mundo e, em particular, no Brasil. O reconhecimento pelo Prêmio Nobel de que a luta contra o aquecimento global é um fator fundamental para garantir a paz planetária, afirmam a maioria dos artigos e reportagens, é mais um importante indicador de que o mundo se prepara para enfrentar e superar a crise ambiental.
Isso seria lindo, se fosse verdade. O problema é que, para além das inúmeras declarações de boa intenção ou dos anúncios de severas metas para deter o aquecimento global realizados por alguns governantes, muito pouco tem sido feito na prática. Nesse contexto, o Nobel para Gore e o IPCC e o decorrente oba-oba na imprensa mundial podem acabar engrossando ainda mais a espessa cortina de fumaça ideológico-propagandista que dificulta o verdadeiro enfrentamento do problema.
Gore e o IPCC têm seus méritos e, cada um a seu modo, cumpriram recentemente um papel relevante na divulgação da crise climática. O IPCC, criado há 19 anos no âmbito da Organização Meteorológica Mundial (OMM) sempre foi solenemente ignorado pela sociedade e pela própria ONU. Os três relatórios que o painel de cientistas produziu em 2007, no entanto, coincidiram com a percepção mundial de que o aquecimento global já se faz sentir e tiveram o mérito de tirar a discussão sobre as mudanças climáticas do círculo restrito formado pela academia e pelo movimento socioambientalista.
O mesmo se pode dizer de Al Gore que, com seu filme "Uma Verdade Inconveniente", fez aquela que talvez seja a mais bem-sucedida propaganda sobre os perigos do aquecimento global que já foi levada maciçamente ao conhecimento do cidadão médio, sobretudo o alienado cidadão médio de seu país. É, de fato, uma contribuição e tanto, apesar de algumas falhas existentes em seu filme (que não pretendo comentar aqui).
Além disso, não se pode chamar Gore de oportunista, pois desde que surgiu como senador no início dos anos noventa, ele teve na preocupação ambiental um dos pilares de seu discurso político.
Feitas essas ressalvas, vamos a outros fatos que merecem ser analisados. O primeiro deles é que a comissão julgadora do Nobel, mesmo sendo majoritariamente composta por europeus, se consolidou nos últimos anos como um pólo de combate ao governo de George W. Bush e à doutrina por ele difundida. Isso foi determinante para a inclusão de Gore na premiação, que inicialmente estava entre o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e os monges budistas de Mianmar. Vale lembrar que a comissão do Nobel já havia dado uma bela bordoada no governo republicano dos EUA ao conceder em 2002 o prêmio da paz ao ex-presidente Jimmy Carter, também do Partido Democrata.
Não é nenhum pecado bater no Governo Bush, muito pelo contrário, mas cabe refletir se a premiação do Nobel da Paz este ano trará conseqüências concretas para além das próximas eleições nos Estados Unidos.
É claro que uma mudança de orientação política na maior potência econômica mundial terá reflexos nas discussões multilaterais, mas a simples vitória democrata nas eleições presidenciais não assegura o fundamental, que é a mudança dos padrões de produção e consumo nos países mais ricos, Estados Unidos à frente.
Jogo de cena
Essa mudança é para ontem, mas, belos discursos à parte, ninguém parece se mexer muito para "salvar o planeta". A engrenagem de discussões multilaterais ao menos está se movendo, com uma série de reuniões de cúpula realizadas este ano e a realização da 13ª Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP-13) que acontecerá em Bali (Indonésia) no mês de dezembro. O efeito prático dessas discussões que pretendem estabelecer uma agenda para a segunda fase do Protocolo de Kyoto (após 2012), no entanto, ainda é uma incógnita.
Após uma semi-fracassada reunião do G-8 realizada em junho, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, anunciou em nome dos países mais industrializados a ousada meta de redução de 50% das emissões de gases provocadores do Efeito Estufa até 2050. Antes, a União Européia já havia anunciado a não menos ousada meta coletiva de 20% de redução até 2020.
Tudo muito bacana, mas o diabo mora num detalhe: a maioria dos governos, seja no G-8 ou na UE, não aceitou que essas metas fossem vinculantes, ou seja, de cumprimento obrigatório. Assim sendo, o que existe por enquanto é um jogo de cena. Ou não foi um mero jogo de cena o que fez Bush, ao convocar no mês passado uma "reunião de emergência" com os governos dos 16 países maiores emissores?
Após três dias de blá-blá-blá, nenhuma proposta concreta foi apresentada. Falou-se muito em novas fontes de energia e na redução do uso de combustíveis fósseis, mas essa discussão se deu claramente no sentido de assegurar que os EUA poderão contar com os fiéis aliados de sempre na expansão da produção do etanol que, como Bush adora repetir, irá "dar segurança energética" à grande nação norte-americana nos anos vindouros.
É aí que mora o perigo, pois esse discurso, adotado tanto pelos republicanos quanto pelos democratas, prova que os EUA não estão dispostos nem mesmo a iniciar a discussão sobre uma eventual modificação de seus modos de produção e consumo. Se essa mudança não acontecer, podem até dar a Al Gore o prêmio da FIFA de melhor jogador (ele já tem o Oscar e o Nobel) que não vai adiantar nada e nós seguiremos firmes na rota de colisão em que o atual sistema econômico colocou a humanidade e o planeta. Essa é a verdadeira verdade inconveniente.
Por: Maurício Thuswohl, Jornalista da Agência Carta Maior / Envolverde
Fonte: Revista Eco21 nº131
- Categoria: Governo e Política, Internacional, Ecologia, Vida e Ambiente, Ambiente Urbano
1 Comentário Adicione o seu
1. THIAGO | 5 March, 2008 - 03:32h
Hum muito to bom o coment[ario do filme
legal bem exolicativo!
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