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Formas de dizer

12 January, 2008 - 09:54h Délcio Rocha

Formas e formas de dizer. Palavras que transformam, reformam, talvez deformem, informem demais, ou menos, conformam, desconformam.

Não é que ela seja chorona - nasceu com o dom das lágrimas.

Não é que ele seja arrogante - tem é excesso de personalidade.

Não é que ele tenha me ofendido - é apenas uma pessoa muito sincera.

Formas de dizer que escondem o que era preciso, hoje, com urgência, sem falta… revelar e redizer, ou ficará o não dito pelo dito. Ou é benevolência mesmo, querer bem ao outro, dar ao outro nova chance, e outra chance, desejar ao outro o melhor. Ao outro referir-me com boas palavras.

Não é que ele seja dorminhoco - simplesmente descansa em horas imprevisíveis.

Não é que ela seja antipática - seu problema é a timidez.

Não é que ele tenha me traído - suas circunstâncias é que o traíram.

Palavras generosas, maneiras de manusear o real para que o real não ataque, não queime, não fira, não açoite, não machuque. Ser assim, ser doce com frases leves, frase moça, frase que apenas roça a superfície dura da realidade amarga.

Não é que ele seja preguiçoso - acontece que ninguém é de ferro.

Não é que ele perca a compostura - é melhor que solte os cachorros a morrer de infarte.

Não é que ela tenha me roubado - eu é que fui descuidado.

Mais que eufemismo, elogiosa perífrase, modo de falar pensado para não pensar, não aprofundar a chaga. Chega de sofrer. Xingar tampouco adianta. Tão pouco… Choramingar é chuva em asfalto, nenhuma semente para crescer e frutificar.

Não é que ele escreva errado - sua ortografia é original e ousada para o nosso tempo.
Não é que ela fale mal de mim - eu é que não ando na linha.

Não é que ele me explore - no fundo só quer o meu crescimento como pessoa.

Palavras que tapam o sol com a peneira, e tapam mesmo, impedem que a pele sofra os raios de fogo.

Palavras que douram a pílula, porque pílula dourada é o que há de melhor, não assusta quem a precisa engolir. Palavras que não choram o leite derramado, era mesmo um leite estragado…

Não é que eu fuja do confronto. Ou tenha medo de encarar os fatos, e tirar a limpo. Não é que eu seja covarde. Não é que eu ponha água na fervura. Ou sim?

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor. Web Site: www.perisse.com.br

Fonte: Correio da Cidadania

- Categoria: Vida e Ambiente, Educação, Artigos, Artigos Técnicos

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